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Te tocar é melhor que viajar pra Roma¹: A política do Toque

Nunca tive uma experiência de quase-morte, mas tenho uma experiência de quase-vida. Não é de uma hora pra outra, como nos filmes, que eu me dou conta disso (seria bem mais econômico em questão de tempo se fosse assim; mas tudo bem, deixemos Cronos de lado a favor de Kairós). Sim, o que estou chamando de quase-vida é aquilo que já conhecemos; você sabe muito bem o que eu quero dizer com quase-vida. Existe alguém, sim, vivendo por mim e respondendo em meu nome; existe um tom de voz que não é exatamente o meu mas que sai da minha boca quando eu tento falar; existem atitudes incoerentes e insatisfatórias que eu continuo a praticar. Os momentos em 100% são tão raros que eu aprendi a me apegar avidamente às pessoas e situações relacionadas emocionalmente a eles. E eu, é claro, esqueço e me lembro, esqueço e me lembro, mas descobri um remédio que tem funcionado.

Eu estava procurando alguma coisa profunda, mas o que eu buscava e me angustiava estava bem na superfície: a pele, essa flor única de cada um. Depois de ler tantos livros e escrever poemas sobre o amor, percebi que a maioria das pessoas à minha volta só tinha experiências de entrega total relacionada ao tato quando eram experiências sexuais. Achei isso triste e estranho. Não queria depender de experiências sexuais pra ter experiências tácteis entregues e conetadas!

Conheci na prática a massagem tântrica enquanto ferramenta de desenvolvimento pessoal em 2016. Foi um looping. Era tão bom que chegava a ser assustador. Lembro de sair do curso da Casa de Lakshmi me perguntando como seria minha vida afetiva daqui pra frente e se haveria pessoas dispostas a experimentar um novo jeito de se relacionar fisicamente. Havia pessoas, sim! A maioria delas, como eu, estava muito ocupada em manter quase-vidas pra mergulhar com coragem no universo semi-desconhecido do Tato Humano. E todas elas, como eu, tinham um enorme recipiente, com um vazio acumulado desde a infância, ávido pra ser preenchido por calor humano. Só um intensivo de carinho dedicado e silencioso daria conta da gente.

A HISTÓRIA DO TATO

Na evolução dos sentidos humanos, não há a menor dúvida de que o Tato foi o primeiro a surgir e se desenvolver. A pele é o órgão mais extenso de todo corpo e o sistema táctil é o primeiro a se tornar funcional em todas as espécies até hoje catalogadas. Com nove semanas de vida fetal corrida, se a palma da mãozinha for tocada, os dedos se curvarão no gesto de agarrar. Tanto a pele quanto o sistema nervoso se originam da mesma camada embriônica, a ectoderme. O sistema nervoso é, portanto, a parte “de dentro” da pele, bem como a pele pode ser considerada a face externa do sistema nervoso. A pele é, portanto, o mais brilhante espelho humano pra mediar e expor os sentimentos externos e internos do homem.

Muitas pessoas, quando crianças, não experimentam o toque com a profundidade que gostariam. Depois de sair da calorosa experiência do útero, esses bebês precisam ser continuamente amados. Essas crianças simplesmente não são tocadas, ou não são tocadas o suficiente, ou pior, são vítimas de abuso ou violência. O que a pele de dentro registra, é claro, é uma iminência de perigo. O que a pele de fora pode registrar, dentre outras coisas, é uma enorme gama de doenças de pele, alergias, acne, manchas. A pele de fora pode desaprender a ser tocada. A pele de fora pode não querer ser tocada. A pele de fora pode querer desesperadamente ser tocada, mas não ter aprendido o caminho do calor e da troca. A pele pode ficar esquecida como um piano de cauda na sala a serviço do grandioso cérebro que tenta, através de discursos inteligentes, simular o seu déficit de toque.

Passamos, então, a simular o toque com a mente. Dizemos coisas como “agora que eu me toquei” ou “esse texto me tocou profundamente” ou “você não se toca?”, mas na verdade não estamos mesmo nos tocando: estamos pensando e vivendo na grande MATRIX MENTAL que, em seu palco, simula ser os nossos sentidos.

O TOQUE NA FORMAÇÃO DO “EU”

O toque do Outro — principalmente, é claro, o toque materno nas primeiras fases do ser humano — é uma das formas mais marcantes de delimitar as fronteiras do meu Eu. Sei que termino aqui e sei que existo quando você me toca e me olha.

-> Sei que sou visível porque você me toca ao falar comigo e se dirigir a mim.
-> Sei que sou desejado porque você gosta de tocar a minha pele.
-> Sei que sou amado pois recebo o seu toque e me sinto acalentado por ele.

O déficit do toque é manifestado como um estado de crise. Não sei quem sou e não sei o que quero. Não sei se gosto que me toquem, mas sei que falta alguma coisa. Não sei como manifestar meus desejos e emoções. Não sei o que está acontecendo com a minha pele de dentro e de fora, e o meu cérebro não tem recursos pra responder.

“Eu”, que em algum momento já me considerei uma pessoa fria (o que é curioso, pois os únicos seres humanos frios que eu conheço são cadáveres), percebi através das dinâmicas vibracionais que eu estava sedenta por carinho. Queria ser tocada, e isso não era um desejo sexual. Precisava ser tocada pra entender quem eu era e o que gosto, precisava ser tocada pra entender onde começo e acabo, precisava ser tocada pra reaprender a sentir prazer pela vida e pelo fato de estar encarnada. Precisava ser tocada pra sentir o meu coração responder estimulando minha temperatura física pra deixar de ser uma pessoa fria.

A POLÍTICA DO TOQUE

Decidir pelo toque é um ato político na esfera individual que vai afetar, certamente, todo o seu entorno social. Decidir pelo toque é decidir pela Vida. Experimentos realizados com mamíferos em fase de amamentação e que foram amamentados através de sacos de leite em bonecas de arame não sobreviveram. Se eu decido que quero tocar as pessoas e quero ser tocada, estarei afetando energeticamente todos os ambientes por onde eu passar e alterando a dinâmica de todas as minhas interações sociais. Se eu admito que o afeto é o princípio de qualquer interação, seja ela pessoal ou profissional, eu estou dizendo que agir só com a mente está incompleto e que o toque pode ser a melhor porta de entrada pra uma solução ou ideia que beneficie e satisfaça a todos.
Mas se o toque é fonte de cura, de autoconhecimento, de autoempoderamento e de direcionamento de Vida, por que ele não é estimulado? Por que no colégio, inclusive, somos repreendidos durante as aulas se queremos assisti-las fazendo carinho em alguém? Por que aprender algo se tornou sinônimo de individualismo e reclusão, e não de compartilhamento e carinho? Por que a única pessoa cuja sociedade legitima o toque é o meu parceiro sexual? Por que não questionamos o fato dos toques íntimos serem moralmente aceitos só quando dizem respeito ao sexo e à atração física?

A repressão ao toque está diretamente relacionada à sociedade capitalista, à propriedade privada e à manutenção de uma sociedade baseada no consumo de bens e serviços. Se todos nós estivéssemos supridos de carinho, com nossas fronteiras bem delimitadas e com os nossos corpos bem aquecidos, como seria possível um programa como “dar uma voltinha no shopping”, aquele lugar gelado em que o piso escorrega, os funcionários são mal-pagos e os produtos não são comercializados diretamente por quem os produz?

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Dançando feliz na Formação em Psicoterapia Vibracional. Isso que é aprender de corpo inteiro! (créditos: Deva Kamalinii)

Esses dias, vi um filme em que os personagens se tocavam de maneira leve e suave. As cenas eróticas surgiam de maneira tão sutil e contínua que eu me senti levitar assistindo. Um leve prazer por todo corpo. O filme me inspirou a pensar: por que nos tocamos de maneira tão bruta? Por que não nos aproximamos do Outro com mais leveza? Sim, talvez porque estamos sedentos. Sim, talvez porque ninguém nos ensinou. Esse filme — certamente problemático em relação ao papel que as personagens femininas exercem — se chama “Amor Pleno” (“To the Wonder”, 2011) de Terrence Malick, e está disponível no Netflix.

Decidir sair da quase-vida passa por se abrir novamente ao toque. Todos nós, em alguma medida, fomos violentados por esse modelo. Nós, mulheres, fomos e somos violentadas diariamente por ele. Aqueles que foram abusados ou violentados sentirão uma resistência grande em passar do paradigma de medo e dor para o paradigma do prazer. O sistema não quer isso. Revoltar-se com palavras pode ser perigoso politicamente mas, na esfera individual, o toque é verdadeiramente revolucionário. Portanto, o gesto político que eu lembro de fazer quando quero sair dessa quase-vida é tocar. E tocar, vamos ser sinceros, é uma forma gostosa de viajar — pra pele de dentro, na pele de fora.

¹”Te tocar é melhor que viajar pra Roma” é um verso de uma canção minha.

Escrito por: Carolina Turboli – aluna da primeira Turma de Formação em Psicoterapia Vibracional

Referências:
MONTAGO, Ashley. Tocar: o significado humano da pele. São Paulo: Summus, 1988.

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Sobre o(a) Autor(a): Carol Turboli

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(aprendiz de) alquimista da palavra falada, cantada e escrita. escritora e compositora. professora e pesquisadora. Camaleoa, bipolar e macumbeira.